Toda profissão tem seus exemplos mais conhecidos na ficção. São personagens que levam os dilemas e alegrias do ofício para um público mais amplo e acabam por criar um imaginário popular sobre o que faz e como vive determinado profissional. Na advocacia, a imagem do advogado como uma figura íntegra, séria e ponderada permeia boa parte das expectativas alimentadas pela sociedade perante aos advogados.

Tal construção tem origem em 1960, com a publicação do romance “O Sol é para Todos”, pela escritora Harper Lee. Considerado um dos maiores clássicos da literatura norte-americana, o livro venceu o Pullitzer – prêmio em excelência em realizações literárias – e foi um sucesso instantâneo.

O livro trata com vivacidade e humor assuntos sérios como estupro e desigualdade racial. E apresenta o protagonista, Atticus Finch, como um herói moral e modelo de integridade para advogados. É ele que aceita um caso que muitos não aceitaram na Alabama dos anos 1930 do livro: defender Tom, um faz-tudo negro, contra a acusação de estupro de uma menina branca.

Ao ser narrado pela filha do protagonista, o livro constrói a imagem do advogado como um sujeito extremamente sério e íntegro. Que trata todos da mesma forma e preza pela integridade em todas suas ações. Também coloca o advogado como promotor da justiça social ao sempre desconfiar do que é dito e tratar todos com igualdade. O tom social do livro casa com as mudanças que a sociedade americana vivia no início da década de 1960, em especial na questão racial. O título no Brasil – “O Sol é para Todos” – transparece o momento.

Livro, peça, filme

O modelo proposto por Atticus Finch ganhou corpo e nome na adaptação do livro ao cinema. “O Sol é para Todos” foi lançado em 1962 e virou um clássico do cinema. Filmado em preto-e-branco e com o mesmo humor vigoroso do livro, sem deixar a seriedade do debate social, o protagonista foi vivido por Gregory Peck, um dos grandes atores da época. No Oscar daquele ano, Peck levou o prêmio de Melhor Ator por seu Atticus compenetrado, sério e de poucas palavras.

A obra entrou para a cultura americana e do mundo todo. Virou peça de teatro, escrita pelo roteirista Aaron Sorkin e encenada por Jeff Daniels na Broadway. Seu status cult foi ampliado pelo fato da escrita Harper Lee simplesmente ter sumido do mapa após o livro. Tímida e reclusa, ela publicou apenas mais um livro antes de falecer, em 2016: “Vá ver um vigia”, lançado no ano anterior. Vendeu como água.

Advogados sempre foram protagonistas de filmes e livros. Em todos eles há a influência do advogado modelo vivido por Peck no filme. A cena final do filme, o julgamento de Tom, é o ponto alto de sua atuação: defensor da moralidade e das causas, ele explica porque o acusado é inocente e choca a pequena cidade do Alabama, que se revolta contra ele. O suficiente para entrar para a história.